Quatro negros
Martha Medeiros
Durante as quatro ou cinco últimas edições da Feira do Livro, tive por costume publicar nesta coluna uma lista de sugestões de leitura, o que este ano não fiz por não ter lido o suficiente número de títulos que me entusiasmassem – daria no máximo um parágrafo. Eu teria dito que gosto muito da Elisa Lucinda e de seu Contos de Vista. Que Pelado, de David Sedaris, me fez rir com sua prosa hilária e inteligente. Que A Louca da Casa, de Rosa Montero, é um belo tratado sobre a arte de escrever. Que A Cura de Schopenhauer quase se equivale a Quando Nietzche Chorou. Que Viagem Vertical, de Enrique Vila Matas, seduziu-me tanto quando Desvarios no Brooklyn, do excelente Paul Auster, e que Um Beijo de Colombina, de Adriana Lisboa, é uma bela história que li com atraso. E tem Auto, de Leonardo Felipe, um gaúcho que tem um olhar sacana da vida, o que faz falta. No entanto, se tivesse que indicar um único livro, nem seria o Memórias de Minhas Putas Tristes, que é lindo, mas você já leu, não leu? Indicaria Quatro Negros, que só li agora e eu espero que todos façam o mesmo assim que terminarem as deliciosas aventuras da Danuza.
Que Luis Augusto Fischer escreve bem não é nenhuma novidade. Com seu best-seller, Dicionário de Gauchês, popularizou-se, apesar de ser, nossa, um professor de literatura, um intelectual. Aí ele aparece com seu primeiro romance e de repente vá que alguém se assuste: ih, agora a coisa ficou séria, melhor continuar com os dicionários dele, com as crônicas, está mais do que bom. Mais do que bom, virgula.
Quatro Negros é um livro imprescindível por todo os motivos. Conta uma história de uma humanidade assombrosa e rara. Faz a gente embarcar numa viagem rumo à alma daqueles que passam por nossas vidas sem percebermos – quem é percebido hoje em dia? – e rumo à nossa alminha também, tão abandonada. É terno sem ser babaca, é forte sem ser violento e é novo sem ser modernoso – belíssima, pra mim, é a inventividade do texto do Fischer, expondo as incertezas do narrador, no caso, ele próprio, o escritor. Com isso, deu graça e beleza à sua prosa e fez cair por terra qualquer altivez mal disfarçada, típica desta nossa atividade. E se nada disso importa – e não importa mesmo, é só uma opinião -, Quatro Negros precisa ser lido porque, mesmo não querendo ensinar nada, é uma lição sobre o sagrado da vida de cada um, sobre as múltiplas faces do amor e sobre o quanto tudo que é real é profundo. E sobre o tempo, que passa, como os livros passam, como as histórias passam.
Quase todas, Fischer. A sua fica.
Domingo, 4 de dezembro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.